Veja na publicação abaixo
Perfil do rádio - Pesquisa da FGV
sábado, 9 de maio de 2009
O RÁDIO PODERIA AJUDAR

Houve momentos na história do rádio que grandes campanhas eram feitas para arrecadar donativos para vítimas da enchente ou da seca. O rádio colaborava firmente para isso. Hoje isso mudou a televisão já faz esta parte. Mas sugerimos que os diretores de rádios do Ceará tentem fazer um pouco de solidariedade em seus meios de comunicação, bastaria um programa que convocasse as pessoas da comunidade para deixar mantimentos nas sedes das rádios. Isto faria com que o rádio continuasse com seu papel de informar e ajudar o povo como sempre fez.
LEITURA PARA REFLEXÃO...

A corrupção e sua tipologia
Escrito por Léo Lince
08-Mai-2009
O filósofo Paulo Arantes, no seu delicioso "Diccionario de bolso do Almanaque Philosophico Zero à Esquerda", trata com propriedade do assunto. Sempre certeiro nas flechas da ironia, ele sugere o estabelecimento de uma tipologia para enquadrar, entender e definir a corrupção, em suas tantas, tamanhas e tão disseminadas formas de manifestação na vida brasileira recente.
Entre os verbetes do dito "Diccionario", há um que diz o seguinte: "Corrupção II - Há corrupção de dois tipos. Tipo B, inferior: corrupção atrasada, segundo o paradigma desenvolvimentista da produção. Tipo A, superior: dita de acumulação flexível, que se exprime na forma gramaticalmente correta do conflito de valores (v. La règle du jeu)".
Ao remeter o leitor para outro verbete, o que fala da "regra do jogo", o filósofo aponta para as grandes tratativas que, mesmo não aparecendo capituladas como tal, podem se constituir como cerne ativo da corrupção sistêmica.
Os mais céticos, inclusive, podem considerar que o perigo maior reside nesta outra linha, abaixo da superfície visível. Por isso, ao observar a fieira interminável de escândalos que se sucedem (quase todos relacionados ao Tipo B), recomendam cautela e vigilância redobrada. Tudo bem, vale comemorar a denúncia e o desmantelamento de qualquer esquema ou tipo de corrupção. Mas, olho vivo. O desmonte em penca dos esquemas envelhecidos pode encobrir a emergência de esquemas novos, mais eficientes e sintonizados com o paradigma da "acumulação flexível", o Tipo A da corrupção.
Especulações à parte, para além dos argumentos vários, uma coisa é certa: vivemos um período atravessado por uma monumental crise de valores. O cidadão, espantado, lê sobre corrupção todos os dias nos jornais. Doses cavalares. O foco do momento, a bola da vez, é o Congresso Nacional. Desde o início do ano, quando o Senado e Câmara passaram a operar sob nova direção (de velhíssimas raposas), o rescaldo da disputa desencadeou a sangria de denúncias que jorra aos borbotões até hoje. O resultado não poderia ser outro: a reputação do parlamento brasileiro, que já não era boa, está em petição de miséria.
Cabe perguntar: se o foco investigativo estivesse voltado para o Executivo ou o Judiciário, o resultado seria diferente? O cidadão tem sólidas razões para desconfiar que não. Afinal, o mesmo período (em que pululam os escândalos que agravam a má fama que o parlamento faz por merecer) foi marcado, por conta de iniciativas tomadas nos escalões mais altos do Executivo, pela brutal transferência de recursos públicos para bolsos privados. Bilhões foram entregues para as montadoras, os exportadores, o agronegócio. Grupos econômicos poderosíssimos, encalacrados pela especulação com ativos tóxicos, receberam a pronta ajuda do governo em metal sonante. As mega-fusões, que deslocaram o eixo do poder, principalmente na telefonia e no setor financeiro, jamais poderiam ser realizadas sem a "mãozinha" decisiva do governo.
Alterações na legislação infraconstitucional e na composição das agências reguladoras foram operadas para facilitar tais negócios gigantescos. Como nenhuma destas decisões foi debatida em hasta pública, o cidadão, escaldado, desconfia.
A luta, necessária, contra a corrupção sistêmica é plena de armadilhas. É bom não se deixar levar pelas pistas que despistam ou pelas falsas soluções. A prevalência da ética na política não se garante pela existência do "grande líder" para sempre virtuoso, nem pela "reserva moral" de quem pretensamente possua o monopólio da ética. Isto não existe, senão como mistificação. A demanda fundamental aponta para outros caminhos.
A defesa do bem público está associada com a idéia de bem público como bem visível. É público por ser patrimônio de todos e por ser transparente. Seria ótimo que os políticos, de todos os partidos, fossem virtuosos. Ainda assim, o que a cidadania precisa é de meios efetivos de controle, impessoais e institucionalizados, sobre as estruturas que ordenam a alocação e o uso dos recursos públicos. Portanto, barbas de molho e vigilância redobrada com a corrupção sistêmica, em toda sua tipologia.
Léo Lince é sociólogo.
Retirado do site http://www.correiodacidadania.com.br/
um pouco de história das comunicações...
Primeiro merchandising da telenovela brasileira
Segundo o jornalista e publicitário Hélio Kaltman (Revista de Comunicação, ano 3, nº 9, 1987, pg. 23), o primeiro merchandising nas novelas ocorreu em O Semideus, no ar em 1978/1979, cuja trama girava em torno de Hugo, estrelado por Tarcísio Meira, que se acidentava na explosão de uma lancha. Milhões de espectadores especulavam: Hugo morreu, Hugo está vivo, Hugo ficou deformado com a explosão. Na época, Kaltman trabalhava na agência Caio Domingues e Associados, que detinha a conta do Banco Halles (anos depois fechado pelo Banco Central). A produção da novela foi até a agência e propôs a gravação de uma cena na qual o personagem de Tarcísio Meira reaparecia com o rosto deformado por queimaduras, para trocar um cheque no Banco Halles. A agência aceitou, com a condição de que fosse colocado um cartaz do Halles para captação de fundos de investimento. A produção da novela global confirmou, se fosse pago uma quantia pela inseção do cartaz. Tudo acertado, conta Kaltman:
"O diretor, Walter Avancini, preocupado com detalhes, não admitiu ser interrompido por estranhos como nós. Tivemos de explicar a um câmera que o enquadramento do cartaz de propaganda do Halles estava pago e se tratava de um negócio entre o cliente, a agência e a emissora. [...] Avancini foi para dentro do caminhão de externas e a cena começou a ser gravada até que um grito estalou nos microfones: - 'Tira esse negócio daí!'
Depois de muito impasse, a equipe da agência de propaganda foi conduzida ao interior do caminhão de externas. " Ninguém me avisou nada dessa história de aparecer cartaz", disse Avancini. Novas discussões, até que o diretor da novela concordou. Diz Kaltman: "Hugo reapareceu na novela, gloriosamente, com um cartaz do Halles fazendo um fundo não muito discreto".
Sucesso mesmo fez o jornalzinho do banco, ao desvendar em primeira mão o grande mistério da novela.
"O diretor, Walter Avancini, preocupado com detalhes, não admitiu ser interrompido por estranhos como nós. Tivemos de explicar a um câmera que o enquadramento do cartaz de propaganda do Halles estava pago e se tratava de um negócio entre o cliente, a agência e a emissora. [...] Avancini foi para dentro do caminhão de externas e a cena começou a ser gravada até que um grito estalou nos microfones: - 'Tira esse negócio daí!'
Depois de muito impasse, a equipe da agência de propaganda foi conduzida ao interior do caminhão de externas. " Ninguém me avisou nada dessa história de aparecer cartaz", disse Avancini. Novas discussões, até que o diretor da novela concordou. Diz Kaltman: "Hugo reapareceu na novela, gloriosamente, com um cartaz do Halles fazendo um fundo não muito discreto".
Sucesso mesmo fez o jornalzinho do banco, ao desvendar em primeira mão o grande mistério da novela.
VEM POR AÍ
Congresso Anual de História da Mídia em Fortaleza será em agosto
qui, 22 de janeiro de 2009 20:45
O VII Congresso Brasileiro de História da Mídia (ALCAR 2009) será realizado em Fortaleza (CE), na Universidade de Fortaleza (UNIFOR) de 19 a 21 de agosto de 2009.
Contando com o apoio do Globo Universidade e da Petrobras, o congresso desse ano tem como tema "Mídia Alternativa e Alternativas Midiáticas: Tradições e Fronteiras" e contará com a presença de três convidados internacionais: Christian Delporte, da Universidade de Versailles Saint-Quentin em Yvelines, França; Clemencia Rodriguez, de Oklahoma e Olga Guedes Bayle (UK).
As chamadas para a apresentação de trabalhos será divulgada em março. Abaixo transcrevemos o programa do congresso, ainda sujeito a algumas alterações.
PROGRAMA
Local: UNIVERSIDADE DE FORTALEZA
Fortaleza – CE – Brasil
Universidade de Fortaleza (UNIFOR)
Data: 19 a 21 de Agosto de 2009
Promoção:
ALCAR – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES DE HISTÓRIA DA MÍDIA
Tema central:
Mídia Alternativa e Alternativas Midiáticas
Tradições e Fronteiras
Congresso
19/08/2009 – 8h30 às 12h
Local: Teatro Celina Queiroz
Credenciamento
19/08/2009 – 9h30 às 11h30
Reunião da diretoria com os coordenadores dos GTs
19/08/2009 – 14:00 às 15h30
Local:Teatro Celina Queiroz
História e Mídias alternativas na América Latina
Palestrantes: Clemencia Rodriguez, Ph.D (Oklahoma)
Cicilia Maria KrohlingPeruzzo, Drª (UMESP)
Gustavo Pinheiro, Ms. (UNIFOR)
Mediadora: Catarina Tereza Farias de Oliveira, Drª (UECE)
19/08/2009 – 15h30 às 18h30
Apresentação simultânea dos trabalhos nos GTs em locais indicados no programa recebido no credenciamento.
19/08/2009 – 19h30 às 21h
Local: Teatro Celina queiroz
Solenidade de Abertura/ Conferência Inaugural
Mídia Alternativa – alternativas Midiáticas – Olga Guedes Bayle, D.Sc (UK)
O Papel das Mídias – Marialva C. Barbosa, Drª (UFF)
Alternativas no Mundo Digital - José Marques de Mello, Dr. (UMESP/Cátedra Unesco
Mediadoras: Erotilde Honório Silva (UNIFOR)
Valquíria Aparecida Passos Kneipp (FA7)
20/08/2009 – 8h30 às 10h
Local: Auditório da Biblioteca
Alternativas Midiáticas – Comunicação e Mobilidade: perspectivas
André Luiz Martins Lemos, Dr. (UFBA)
Ricardo Jorge de Lucena Junior, Dr.(UFC)
José Afonso da Silva Junior, Dr. (UFPE)
Mediador: Eduardo Nunes Freire, ME (UNIFOR)
20/08/2009 – 10h30 às 12h30
Reunião dos Gts
20/08/2009 – 14h às 15h30
Local: Auditório da Biblioteca
Audiovisual como espaço de cidadania
Beatriz Furtado, Drª (UFC)
Ana Elizabete Freitas Jaguaribe (UNIFOR)
Antonio Wellington de Oliveira Júnior, Dr (UFC)
Mediadora; Daniela Dumaresq, Drª (UNIFOR)
20/08/2009 – 15h30 às 18h30
Reunião dos GTs
20/08/2009 – 19h às 21h
Local: Hall do Teatro Celina Queiroz
Lançamento de Livro
21/08/2009 – 8h30 às 10h
Cultura Popular História e Mídia
Gilmar de Carvalho, Dr. (UFC)
Márcia Fraz Amaral (Universidade Federal de Santa Maria-UFSM)
Maria Érica de Oliveira Lima, Drª (UFRN)
Mediadora: Erotilde Honório Silva, Dr.ª (UNIFOR)
21/08/2009 – 10h30 às 12h
Reuniões dos GTs
21/08/2009 – 14h às 15h30
Local: Teatro Celina queiroz
Perspectivas do Jornalismo Impresso na Contemporaneidade
Christian Delporte, Dr (Universitè de Versailles Saint-Quentin en Yvelines, França)
Eduardo Nunes Freire, ME (UNIFOR)
Denis Oliveira (USP)
Mediadora: Valquíria Aparecida Passos Kneipp
21/08/2009 – 15h30 às 18h
Reunião dos GTs
21/08/2009 – 18h às 19h
Local: Teatro Celina Queiroz
Encerramento Cultural
sexta-feira, 8 de maio de 2009
NÃO PODEMOS DEIXAR DE LER...
Crônica
Comendo lagartas e defecando borboletas
Em plena Praça do Ferreira, o cronista Raymundo Netto assiste uma cena que lhe causa indignação poética: a polícia prende o poeta Mário Gomes. Tem início o resgate desta figura que é patrimônio afetivo da cidade
Raymundo Netto
especial para O POVO
08 Mai 2009 - 00h31min
Tumulto na rua. O camburão da polícia chegava em frente ao Palacete Ceará à praça do Ferreira. Assalto? sequestro? Não, prenderam “O” poeta. Quem? Ora, quem... o Mário Gomes, sabe, não?
Era isso mesmo. Mário Gomes, aquele que conseguiu se estabelecer como poeta, mesmo por quem não conhece ou lembra um único verso seu — ao contrário de outros que lançam livros e livros, recebem títulos e medalhas, cobertura da alta imprensa e ninguém admite a honraria —, o tipo popular-mor da nossa blond cidade, estava sendo preso. Motivo? Baixara as calças para alguém que caçoara de seus trejeitos, de suas vestes, de sua existência. Ele reagiu, a polícia chegou para pôr ordem e recolheu o “poeta das sarjetas” no parachoque do camburão. Uma multidão de populares o acompanhou. Alguém se dirigiu ao oficial e, como se existisse tal licença (imunidade?) poética, perguntou: “Ele é o Mário Gomes, o poeta, o senhor não o conhece?” Uma senhora chora, outra resmunga: “Deviam prender é bandido!” O povo se revolta, discute, os policiais pareciam nervosos. O Mário, coitado, vestido como um Judas em Sábado de Aleluia, bodejava alguma coisa incompreensível, sei lá o quê, balançava as mãos e fazia caretas, tal qual um menino malino, “um enigma das letras, um amante das estrelas”. A barba malfeita perseguia os cabelos ralos, o nariz torto separava indiferentes olhos verdes a balançar os inchados tornozelos.
Aproximei-me e perguntei o que acontecera. “Eu só queria lançar o meu livro (refere-se à biografia) de novo”, retirou do bolso Mário Gomes: poeta, santo e bandido do Márcio Catunda, abriu e leu:
— O meu legado, deixo ao querido povo cearense! — daí, treme, lacrimejam os olhos, não gosta que o vejam assim, dá-me as costas, passa um lenço na vista, volta-se quase que esfregando o livro nas minhas ventas e repete: — O meu legado deixo à porra do povo cearense! — assisto à indignação, melancólico. Compreendo perfeitamente.
— Pagamento de poeta, Raymundo, é tapa e pontapés! Só isso, fazer poesia aqui é isso...
Um rapaz ao lado me disse que ele comprara quase todos os exemplares de Sábado: estação de viver do Juarez Leitão apenas para mostrar a sua foto aos passantes da praça e provar a todos que ele não era qualquer um, não.
Tupy, um cachorro velho, chegou apreensivo. Mário sorriu:
— Dentre amigos encontrei cachorros; dentre cachorros encontrei amigos. Desculpe, amiguinho, aderi à Fome Zero, tenho nada. — lamentou, retirando dos bolsos do paletó pedaços de guardanapos, retalhos de versos.
Recordei que há poucas semanas havia encontrado o poeta na praça. Estava mais mungangoso que o normal. Paguei-lhe um pacote de biscoitos. Perguntou-me se eu tinha mesmo 40 anos, pois lera o meu livro — em certa ocasião o presenteei com um exemplar — e estava certo de que, apesar da aparência, eu tinha pelo menos uns 80.
— Raymundo, você escreveu um livro muito bom... é um grande literato que fala das calçadas velhas... das calças das velhas... Ah, as calças das velhas estão cheias de moscas! — riu.
— “Cadeiras na calçada”, Mário. Deixe de invenção!
— Já tem uns quinze anos que a gente não se vê, não é?
— Que é isso, Mário, a gente se viu no ano passado, aniversário da Padaria Espiritual, aqui mesmo na praça, lembra?
— Padaria Espiritual? Padaria Espiritual? Não, acho que não... Eu nunca fiz parte da Padaria, eu sou do Clube dos Poetas Cearenses.
Perguntei pela “Turma do Escritório” e ele lamentou o abandono de alguns:
— Tem um poetinha de araque, um retardado, que vez ou outra vem falar comigo. Diz que é meu discípulo. O carinha quer ser eu, sem ter a coragem de ser eu. Queria ver se ele aguentava viver na minha pele um dia. Aguenta não, é frouxo! Aguentar as pauladas que eu aguento, só sendo Mário Gomes. “Subi num pé de cana pra colher uvas. Chegou o homem das laranjas e disse, solta as goiabas, rapaz!”
Súbito, sua face se transformou, correu e jogou o pacote de biscoitos num moleque que lascara uma salva de palavrórios inapropriados:
— Se manque, eu sou Mário Gomes, você é um otário! — voltando, anunciou:
— Depois eu morro, viro nome de praça ou de rua e o povo vai falar de mim, sem lembrar que eu vivia assim, que nem as calçadas velhas do seu livro...
Despertei da lembrança quando o policial disse para não se preocupar. Iriam soltá-lo na esquina do próximo quarteirão.
Olhei para ele. Apesar do estado debilitado, ainda discursa com o vigor de um anarquista. O povo cearense, naquele momento, o reconhecia e sabia que muitos de nós passaremos, mas ele deverá ser lembrado por mais cinquenta ou cem anos. Mesmo ali, com toda desenvoltura, gritava em seu “trono” improvisado: “A maioria esmagadora da cidade me conhece... sabe quem é Mario Gomes! (...) muitos dos que se dizem artistas, antes me procuravam e hoje fingem que não me veem... A verdade da vida é compreender a loucura do outro!”
Olhei mais de perto e percebi que havia outros presos no camburão: Tostão, Chagas dos Carneiros, Casaca de Urubu, José Levi, Tertuliano, Canoa Doida, Pilombeta, De Rancho, Manezinho do Bispo, Burra Preta e tantos outros. Então, tive a certeza de que o Mário não tinha sido preso, e sim, escolhido para viver a imortalidade que só os doidos alcançam.
O relógio da Coluna da Hora gemeu a breve passagem de seu tempo. 283 anos de Fortaleza e eles ainda estão no meio de nós...
>> Raymundo Netto, um sujeito provavelmente inculto que acha muito difícil fazer poesia e insiste em afirmar que conta nos dedos da mão os poetas cearenses que podem se chamar poetas e que reconhece o Mário Gomes como patrimônio imaterial da cidade de Fortaleza.
Contatos: raymundo.netto@uol.com.br
QUEM É MÁRIO GOMES
>Mário Ferreira Gomes nasceu em Fortaleza em julho de 1947. Antes de assumir-se poeta e boêmio convicto, foi professor do antigo curso de Admissão ao Ginásio, na escola Albanisa Sarasate. Iniciou, sem concluir, o curso de Arte Dramática na Universidade Federal do Ceará. No final da década de 1960 fez parte do Clube dos Poetas Cearenses, agremiação dirigida pelo Carneiro Portela que se reunia na Casa de Juvenal Galeno.
Foi internado diversas vezes e conta suas mirabolantes fugas dos tratamentos com choque elétrico. Tem diversos livros publicados, dentre eles: Lamentos do Ego, Emoção Poética, Terno de Poesia (com Alcides Pinto e Márcio Catunda) e Uma Violenta Orgia Universal (antologia).
Comendo lagartas e defecando borboletas
Em plena Praça do Ferreira, o cronista Raymundo Netto assiste uma cena que lhe causa indignação poética: a polícia prende o poeta Mário Gomes. Tem início o resgate desta figura que é patrimônio afetivo da cidade
Raymundo Netto
especial para O POVO
08 Mai 2009 - 00h31min
Tumulto na rua. O camburão da polícia chegava em frente ao Palacete Ceará à praça do Ferreira. Assalto? sequestro? Não, prenderam “O” poeta. Quem? Ora, quem... o Mário Gomes, sabe, não?
Era isso mesmo. Mário Gomes, aquele que conseguiu se estabelecer como poeta, mesmo por quem não conhece ou lembra um único verso seu — ao contrário de outros que lançam livros e livros, recebem títulos e medalhas, cobertura da alta imprensa e ninguém admite a honraria —, o tipo popular-mor da nossa blond cidade, estava sendo preso. Motivo? Baixara as calças para alguém que caçoara de seus trejeitos, de suas vestes, de sua existência. Ele reagiu, a polícia chegou para pôr ordem e recolheu o “poeta das sarjetas” no parachoque do camburão. Uma multidão de populares o acompanhou. Alguém se dirigiu ao oficial e, como se existisse tal licença (imunidade?) poética, perguntou: “Ele é o Mário Gomes, o poeta, o senhor não o conhece?” Uma senhora chora, outra resmunga: “Deviam prender é bandido!” O povo se revolta, discute, os policiais pareciam nervosos. O Mário, coitado, vestido como um Judas em Sábado de Aleluia, bodejava alguma coisa incompreensível, sei lá o quê, balançava as mãos e fazia caretas, tal qual um menino malino, “um enigma das letras, um amante das estrelas”. A barba malfeita perseguia os cabelos ralos, o nariz torto separava indiferentes olhos verdes a balançar os inchados tornozelos.
Aproximei-me e perguntei o que acontecera. “Eu só queria lançar o meu livro (refere-se à biografia) de novo”, retirou do bolso Mário Gomes: poeta, santo e bandido do Márcio Catunda, abriu e leu:
— O meu legado, deixo ao querido povo cearense! — daí, treme, lacrimejam os olhos, não gosta que o vejam assim, dá-me as costas, passa um lenço na vista, volta-se quase que esfregando o livro nas minhas ventas e repete: — O meu legado deixo à porra do povo cearense! — assisto à indignação, melancólico. Compreendo perfeitamente.
— Pagamento de poeta, Raymundo, é tapa e pontapés! Só isso, fazer poesia aqui é isso...
Um rapaz ao lado me disse que ele comprara quase todos os exemplares de Sábado: estação de viver do Juarez Leitão apenas para mostrar a sua foto aos passantes da praça e provar a todos que ele não era qualquer um, não.
Tupy, um cachorro velho, chegou apreensivo. Mário sorriu:
— Dentre amigos encontrei cachorros; dentre cachorros encontrei amigos. Desculpe, amiguinho, aderi à Fome Zero, tenho nada. — lamentou, retirando dos bolsos do paletó pedaços de guardanapos, retalhos de versos.
Recordei que há poucas semanas havia encontrado o poeta na praça. Estava mais mungangoso que o normal. Paguei-lhe um pacote de biscoitos. Perguntou-me se eu tinha mesmo 40 anos, pois lera o meu livro — em certa ocasião o presenteei com um exemplar — e estava certo de que, apesar da aparência, eu tinha pelo menos uns 80.
— Raymundo, você escreveu um livro muito bom... é um grande literato que fala das calçadas velhas... das calças das velhas... Ah, as calças das velhas estão cheias de moscas! — riu.
— “Cadeiras na calçada”, Mário. Deixe de invenção!
— Já tem uns quinze anos que a gente não se vê, não é?
— Que é isso, Mário, a gente se viu no ano passado, aniversário da Padaria Espiritual, aqui mesmo na praça, lembra?
— Padaria Espiritual? Padaria Espiritual? Não, acho que não... Eu nunca fiz parte da Padaria, eu sou do Clube dos Poetas Cearenses.
Perguntei pela “Turma do Escritório” e ele lamentou o abandono de alguns:
— Tem um poetinha de araque, um retardado, que vez ou outra vem falar comigo. Diz que é meu discípulo. O carinha quer ser eu, sem ter a coragem de ser eu. Queria ver se ele aguentava viver na minha pele um dia. Aguenta não, é frouxo! Aguentar as pauladas que eu aguento, só sendo Mário Gomes. “Subi num pé de cana pra colher uvas. Chegou o homem das laranjas e disse, solta as goiabas, rapaz!”
Súbito, sua face se transformou, correu e jogou o pacote de biscoitos num moleque que lascara uma salva de palavrórios inapropriados:
— Se manque, eu sou Mário Gomes, você é um otário! — voltando, anunciou:
— Depois eu morro, viro nome de praça ou de rua e o povo vai falar de mim, sem lembrar que eu vivia assim, que nem as calçadas velhas do seu livro...
Despertei da lembrança quando o policial disse para não se preocupar. Iriam soltá-lo na esquina do próximo quarteirão.
Olhei para ele. Apesar do estado debilitado, ainda discursa com o vigor de um anarquista. O povo cearense, naquele momento, o reconhecia e sabia que muitos de nós passaremos, mas ele deverá ser lembrado por mais cinquenta ou cem anos. Mesmo ali, com toda desenvoltura, gritava em seu “trono” improvisado: “A maioria esmagadora da cidade me conhece... sabe quem é Mario Gomes! (...) muitos dos que se dizem artistas, antes me procuravam e hoje fingem que não me veem... A verdade da vida é compreender a loucura do outro!”
Olhei mais de perto e percebi que havia outros presos no camburão: Tostão, Chagas dos Carneiros, Casaca de Urubu, José Levi, Tertuliano, Canoa Doida, Pilombeta, De Rancho, Manezinho do Bispo, Burra Preta e tantos outros. Então, tive a certeza de que o Mário não tinha sido preso, e sim, escolhido para viver a imortalidade que só os doidos alcançam.
O relógio da Coluna da Hora gemeu a breve passagem de seu tempo. 283 anos de Fortaleza e eles ainda estão no meio de nós...
>> Raymundo Netto, um sujeito provavelmente inculto que acha muito difícil fazer poesia e insiste em afirmar que conta nos dedos da mão os poetas cearenses que podem se chamar poetas e que reconhece o Mário Gomes como patrimônio imaterial da cidade de Fortaleza.
Contatos: raymundo.netto@uol.com.br
QUEM É MÁRIO GOMES
>Mário Ferreira Gomes nasceu em Fortaleza em julho de 1947. Antes de assumir-se poeta e boêmio convicto, foi professor do antigo curso de Admissão ao Ginásio, na escola Albanisa Sarasate. Iniciou, sem concluir, o curso de Arte Dramática na Universidade Federal do Ceará. No final da década de 1960 fez parte do Clube dos Poetas Cearenses, agremiação dirigida pelo Carneiro Portela que se reunia na Casa de Juvenal Galeno.
Foi internado diversas vezes e conta suas mirabolantes fugas dos tratamentos com choque elétrico. Tem diversos livros publicados, dentre eles: Lamentos do Ego, Emoção Poética, Terno de Poesia (com Alcides Pinto e Márcio Catunda) e Uma Violenta Orgia Universal (antologia).
PARABÉNS AO JORNAL O POVO...
Assinar:
Postagens (Atom)
